Sonetos

Estes são os sonetos que eu escrevi. Nem todos estão aqui — apenas os que eu achei bons o suficiente para compartilhar. Alguns contam com pequenas notas que eu achei úteis para a compreensão do soneto.

Ao meu orientador muito agradeço
(Orgulho da ciência e da cultura),
Que me ajudou nesta tarefa dura
E tanto me ensinou desde o começo.

Aos meus pais dou eterno e grande apreço
Pelo exemplo de amor e de ternura,
Respondendo aspereza com brandura,
Às vezes muito mais do que eu mereço.

Aquele chamo, enfim, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo:
Sem ele fora inútil todo esmero,

E todo o meu trabalho, tosco e rudo;
Nem fora o meu esforço tão sincero,
E bem menor o alcance deste estudo.

Como, meu Deus, hei de comer um pão,
Se para comungar sou tão covarde,
Porque, por mais que o vosso nome guarde,
Muito maiores minhas culpas são?

Como a essa mesa hei de chegar, então,
Sem que me paralise e me resguarde
O medo de que seja já mui tarde
Para buscar a vossa comunhão?

E se esse pão dá vida a quem é digno,
E, temendo que, a mim, só me dê morte,
Ao temor de o comer não me resigno,

Como, enfim, buscarei tamanha sorte,
Se creio que o remédio é tão benigno,
Mas temo de o veneno ser mais forte?

Dirá Napoleão: “Eu, corso rude,
Fui grande imperador de toda a França;
César, porém, divino estado alcança,
E eu nunca alcancei tanta virtude.”

César dirá: “Venci, sim, amiúde,
Mas Alexandre tinha por usança
Ser do mundo senhor, de espada e lança,
E eu só de Roma ser senhor não pude.”

Alexandre, por fim, com ar sereno,
Dirá: “Fui o primeiro, sem segundo,
Que conquistei todo o solar terreno.

“Senti, pois, um pesar grave e profundo
E lamentei o mundo ser pequeno
Para vaidade tão maior que um mundo.”

No céu existe uma imortal cidade,
Alheia ao mundo e aos tempos soberanos,
Que pode não temer da morte os danos,
Nem as armas cruéis da antiguidade.

É torpe nela a própria eternidade,
E as leis do esquecimento, vis enganos;
O fado sem poder, sem força os anos,
Nem o tédio prolonga a breve idade.

Ulisses arrasou de Troia os muros,
C’um cavalo de pau e tosca espada,
Pelo louvor dos séculos futuros.

Cartago foi império, agora é nada;
Mas os portões do céu estão seguros
Contra assaltos de toda mão armada.

O dogma da Santíssima Trindade
Nos diz, de modo claro e cristalino,
Que três pessoas num só ser divino
Representam a única verdade.

Porém esse pendor da divindade
É causa de profundo desatino:
Se é uno, como pode, então, ser trino?
Se é trino, então, o que lhe dá unidade?

A humana fantasia é vaso estreito:
Nela não se permite que se acabe
A mais pálida cor desse conceito.

Como um só Deus pode ser três? Não se sabe;
Que juízo tão alto e tão perfeito,
Em mente tão pequena, enfim, não cabe.

Para salvar os homens, se fez homem
Aquele cuja mãe do céu concebe;
E a sua alta presença se percebe
Onde, por ele, dois fiéis assomem.

Quando o santo alimento então consomem,
Cada qual o seu corpo em si recebe:
Um, no copo de vinho, sangue bebe;
Outros, no pão de trigo, carne comem.

Ó Cristo, triunfante na desgraça,
Sobre a morte, ao morrer, destes vitória
E redenção à pecadora raça.

Quando o fazemos em vossa memória,
Nosso único dever é dar-vos graça,
Nosso único prazer é dar-vos glória.

Última cor da bosta, meio amarela,
És, a um tempo, excremento e amargura:
Milho cozido, que na merda pura
Reluz como ouro entre os pedaços dela...

Cago-te assim, amolecida e escura,
Peixe de outra estação, podre costela
Que tens o vil e o sujo da remela,
E o fedor do catarro e da gordura!

Cago o teu lixo torpe e o teu aroma
De alho vencido e de jiló amargo!
Cago-te, ó rude e malcheirosa goma,

Onde n’água do vaso vi meu milho,
Quando senti, com nojo mais que largo,
O cheiro de fritura e o odor de milho!